Ouça Agora

95.9 FM / AM 1160

Sentença do Caso Bernardo é aguardada para o final da tarde

Juíza Sucilene Engler Werle vai proferir sentença ainda nesta sexta-feira
Foto: Reprodução Foto: Reprodução

Depois de oito horas de explanação dos promotores do Ministério Público e dos advogados dos réus do caso Bernardo, no Fórum de Três Passos, na quinta-feira (14), a fase de debate da acusação e da defesa se encerrou na tarde desta sexta (15) com a réplica e a tréplica das partes, que durou mais quatro horas.

O julgamento popular se encaminha para o fim. O próximo passo é o Conselho de Sentença do Tribunal do Júri, formado por sete pessoas, decidir se os réus são culpados ou inocentes. A sentença será proferida pela juíza Sucilene Engler ainda nesta sexta.

O menino foi encontrado morto, enterrado em uma cova rasa, em abril de 2014, quando tinha 11 anos. Os réus foram acusados pelos seguintes crimes:

O pai, Leandro Boldrini, por homicídio com quatro qualificadoras (motivo torpe, fútil, com emprego de veneno e mediante dissimulação) e falsidade ideológica;

A madrasta, Graciele Ugulini, por homicídio com quatro qualificadoras (motivo torpe, fútil, com emprego de veneno e mediante dissimulação);

Edelvânia Wirganovicz, amiga de Graciele, por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, com emprego de veneno e dissimulação);

Evandro Wirganovicz, irmão de Edelvânia, por homicídio duplamente qualificado (emprego de veneno e dissimulação).

Réplica da acusação

O primeiro a falar nesta sexta foi o promotor Edson Vieira, por volta das 10h20. Ele usou o tempo que tinha para mostrar áudios. Antes, pediu autorização para rodar um vídeo, mas a juíza Sucilene Engler indeferiu, sob pena de ocorrer um pedido de nulidade do júri por parte da defesa, já que aquele material não estava anexado ao processo.

Assim como na noite anterior, voltou a chamar os réus de "psicopatas".

Entre os áudios que Vieira mostrou, estavam conversas entre Graciele e Edelvânia, em que o promotor diz que elas sabiam que as ligações estavam sendo interceptadas. As amigas riem e falam de forma alegre. O assunto eram as buscas a Bernardo, dado como desaparecido na época.

A madrasta reclama que acham que ela é culpada. "Está um inferno, as pessoas botando a culpa em mim." "Cidade pequena é assim", pondera Edelvânia, que acrescenta: "Vocês não têm culpa." "Claro. Deus me livre", responde Graciele.

Ele também mostrou no telão uma lista de ligações entre Graciele, Edelvânia e Evandro, dias antes e dias depois da morte do menino.

Outras ligações mostram Leandro falando com um de seus irmãos, Wilson, também enquanto o menino era dado como desaparecido, em que ele diz que está "tudo acertado com os advogados" para a Kelly (Graciele) assumir.

Outro áudio mostra o padrinho de Bernardo ligando para a casa de Leandro e Graciele, para saber do menino. Ele pergunta ao pai se a madrasta voltou de Frederico Westphalen com a criança. "Voltou cara, voltou", afirma Leandro. O padrinho não se convence e diz que vai ao encontro deles. "Teu filho sumiu faz uma semana e 'tu' está aí dormindo com essa vagabunda, não está fazendo nada!"

"Vocês têm culpa no cartório! Vou pra cima de ti, tu vai ver", segue o padrinho do menino. Leandro responde com palavrões. "Vem aqui, vamos ver se tu é macho", completa. O parente também responde com palavrões e os dois se ofendem.

Em seguida, o promotor fez uma análise: "Isso não é indício de envolvimento dele no homicídio? Ele nunca fez nada para achar o filho dele."

Vieira também mostrou áudios que, segundo ele, comprovam que Evandro não estava de férias na época do crime, como ele alegou durante interrogatório.

O advogado Jean Severo, que representa Edelvânia, se retirou duas vezes do Salão do Júri, irritado com a explanação do promotor, que também mostrou imagens do depoimento da ré à polícia, em que ela descreveu como foi o crime. "Só faltou um advogado ali, retrucou Severo. "A delegada perguntou se ela queria um advogado e ela disse que não. É um direito, não um dever", respondeu Vieira.

Defesa de Leandro

O primeiro advogado a fazer sua tréplica foi Rodrigo Gracellé Vares, defensor de Leandro Boldrini. Lembrando que o júri poderia ter ocorrido em Porto Alegre, ele disse: "Ele quis ser julgado aqui, porque aqui vocês o conhecem. Sabem a criação que ele teve, de família simples, pai rude, que não lhe abraçava."

Gracellé destacou que esperava ver as "provas cabais" do Ministério Público contra Leandro, o que na visão dele acabou não ocorrendo. "Vocês responderão e decidirão a vida daquele homem através de uma pergunta", acrescentou, se dirigindo aos jurados.

"O MP diz que ele [Leandro] é um psicopata, que não chora. Mas ao mesmo tempo diz que Edelvânia e Graciele são psicopatas, e elas choraram aqui", continuou o advogado.

Gracellé disse ainda que a postura de Leandro após o desaparecimento, como ressaltou o MP, foi adotada porque "ele não tinha conhecimento." "Como ele vai desconfiar da própria mulher? Qualquer relação é baseada na confiança."

"Para mim, a maior prova, a maior forma de entender o caso é através da lógica. Que postura ele adotaria? Ele ia vagar a noite no domingo? Ia segunda na delegacia pedir pelo amor de Deus para a delegada? Ia fazer plantão na delegacia de polícia? Mas não fez, porque acreditava que o menino ia aparecer. Acreditava que o menino poderia estar pregando uma peça. Só deixou de acreditar quando Graciele, na delegacia, confessou a ele, e teve a reação que teve", completou.

O advogado alegou também que Leandro tinha condições financeiras de colocar o filho em qualquer escola de internato pelo país, se não quisesse ficar com a guarda dele. "Que estorvo é esse que esse pai, em nenhum momento renuncia ao filho?"

Para ele, o fato de Leandro ser o médico mais requisitado da região, e portanto ter boas condições de vida, é uma prova irrefutável de que ele não tinha interesse na morte do filho.

Ao encerrar sua fala, chamou Leandro e seus companheiros de trabalho na defesa do réu para se posicionarem todos à frente dos jurados.

Defesa de Graciele

O segundo advogado a fazer sua tréplica foi Vanderlei Pompeo de Mattos, defensor de Graciele Ugulini. Ele começou reiterando o que havia falado no dia anterior sobre a madrasta. "Eu venho aqui com uma ré confessa. Ela sabe que não será absolvida, mas sai daqui de consciência tranquila".

Graciele afirmou em interrogatório que Bernardo morreu "por acidente", porque tomou uma dose grande de remédios. E admitiu que, junto com a amiga Edelvânia, ocultou o corpo do menino.

Pompeo de Mattos fez críticas ao número de promotores e das disparidades na equipe do Ministério Público com relação aos advogados de defesa.

Sobre a recompensa oferecida por Graciele à Edelvânia, o advogado pediu provas. "Eu desafiei. Me traga aqui a prova do pagamento dos R$ 6 mil. Não veio".

Pompeo de Mattos insistiu que a morte de Bernardo foi uma fatalidade. "O que eu citei ontem da fatalidade, eu repito. O guri carregava medicamento, o guri levava com ele na escola. Tia Ju falava, Ariane, psicóloga, falava, Andressa falava, professor falava, coordenador pedagógico, todo mundo falava. Era conhecimento público e geral".

"A Graciele foi omissa nisso. A Graciele não nega, ela não contraria nada do que existe de real dentro dos autos. Ela disse que tinha problema de relacionamento [com a criança], ela concorda".

Sobre a premeditação do crime, ele negou que a madrasta tenha arquitetado a morte do menino. "Um brigadiano da polícia rodoviária de Santo Augusto, em Tenente Portela, para, prende, multa, conversa com o Bernardo e ela segue viagem. Eu começo a não aceitar essas conjecturas do Ministério Público de que ela programou e foi lá matar".

E seguiu: "Médico e enfermeira. Mas dá uma 'tracada' de remédio em casa, poderia ter matado na casa dele. Por isso, estamos falando de um homicídio culposo, com certeza".

Defesa de Edelvânia

Pela defesa de Edelvânia Wirganovicz, o advogado Gustavo Nagelstein foi o terceiro a falar. Ele contou a história do pai, em Bagé, e logo depois o outro advogado dela Jean Severo deu sequência à tréplica da defesa.

Ele começou fazendo duras críticas às provas usadas pelo MP durante o júri. "Vocês viram que não falaram na pá hoje? Porque a pá não existe. Esse aqui é o laudo oficial, que indica que a pá não foi usada, mas para o MP isso aqui não existe", disse, enquanto rasgava os papéis e os e jogava paro o alto."

"Isso aqui são pérolas ao vento. É em cima disso, de lixo que vossas excelências vão julgar? Perícia é coisa séria. A perícia indica em todas elas que a Edelvânia não tem participação", continuou.

Severo pediu a absolvição dela por homicídio. "Cinco anos de prisão preventiva, sem julgamento. Será que essa moça já não sofreu tempo suficiente pela ocultação de cadáver?", indagou ele.

"As nossas teses principais são, primeiro: negativa de autoria. Nego a participação da Edelvânia nesse terrível homicídio. A segunda: coação irresistível. Essa guria que tem a mãe, seu bem maior, ameaçada de morte o tempo inteiro não vai sucumbir a essas ameaças?"

Em seguida, pediu para Edelvânia se levantar da cadeira. "Quer coação maior do que ameaçar uma mãe?"

"Eu quero a acusação dessa menina na ocultação de cadáver. Eu quero que ela saia daqui condenada", conclui.

Defesa de Evandro

Por último, fez sua tréplica o advogado Luis Geraldo dos Santos, representando Evandro Wirganovicz. Mais uma vez, a exemplo da fala no dia anterior, disse que o processo é baseado em "achômetro". Criticou a acusação por ter usado o fato de o réu ter dito que estava de férias, algo que, segundo ele, não há como provar.

"Tudo aqui vira presunção. Eu dizia ontem e repito, é um processo baseado em achômetro: eu acho, eu imagino, eu penso contra aquele que está lá. E aí trazem gravações. Foram cinco anos para fazer prova. Isso que está aqui são interceptações telefônicas. Olha o tamanho disso [aponta para o processo], deve ter mais e 10 mil trechos de interceptação telefônica. E a acusação se resume a se ele estava ou não de férias", pontuou.

Mais notícias