Ouça Agora

95.9 FM / AM 1160

Reforma de Leite muda quase toda a estrutura das carreiras

No Estado, 80% dos vínculos estão no magistério e na segurança
 Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini/CP  Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini/CP

Altera de forma significativa a estrutura administrativa do funcionalismo a reforma que o governo de Eduardo Leite (PSDB) vai propor nas próximas semanas, quando pretende encaminhar à Assembleia Legislativa os projetos com as mudanças. Os pilares da reforma são alterações nas chamadas vantagens temporais, em gratificações, no plano de carreira do magistério e na previdência (nos itens idade, alíquotas e tempo de serviço). O anúncio dos pontos principais foi feito pelo governador na tarde dessa segunda-feira, no Centro de Treinamento da Procergs, na zona Sul da Capital, após rodadas de negociações mantidas desde a manhã com o secretariado e integrantes da base aliada no Legislativo. Leite adiantou que as mudanças vão atingir todos os poderes e não apenas o Executivo. Segundo ele, os chefes dos demais poderes serão procurados para tratar do tema nos próximos dias, assim como as entidades representativas das diferentes categorias de servidores. Com os sindicatos as reuniões começarão amanhã, pelo Cpers, entidade que representa aproximadamente 80 mil professores, funcionários de escola e especialistas da rede estadual de ensino.

“No Estado, 80% dos vínculos estão no magistério e na segurança. Então, não tem como fazer reforma administrativa sem falar dos dois. Eu enxergo ambiente político para as mudanças. Mas nenhum direito adquirido será objeto de enfrentamento”, assinalou o tucano durante sua exposição. De acordo com os dados de agosto do governo (os últimos disponíveis), no Executivo há 121.571 vínculos ativos e 161.150 de inativos. Deste total, a Secretaria da Educação responde por 75.670 vínculos ativos e 110.844 inativos. Já a área da segurança (Secretaria da Segurança, Brigada Militar, Polícia Civil, IGP, Susepe e Corpo de Bombeiros) soma 33.532 vínculos ativos e 33.821 inativos. Apesar das garantias, somente quando os projetos chegarem à Assembleia será possível ter certeza sobre se serão ou não passíveis de judicialização, conforme já estudam diferentes categorias. A Procuradoria Geral do Estado (PGE) ainda não finalizou a redação dos textos. Leite disse que a paridade e a integralidade, dois pontos caros às categorias da segurança, estarão mantidas nas respectivas aposentadorias.

Segundo o governador, o pacote incluirá também propostas “de ganhos” para parte dos servidores. Ele citou a possibilidade de alteração no abono família, de forma a que seja estabelecida uma linha de corte para os que ganham menos. “O abono família hoje é para todos, e o valor é muito baixo. Nosso objetivo é discutir um valor maior, e especificamente para aqueles com menores remunerações.” O tucano citou ainda a redução do valor de incidência do vale-alimentação que, segundo ele, é uma reivindicação de carreiras do magistério. Ainda em relação à educação, reafirmou que a ideia do Executivo é uma proposta que cumpra o piso e, ao mesmo tempo, ofereça um ganho salarial a determinados níveis, mas “evite um passivo impossível de pagar”.

Entenda o que o governo vai alterar

Vantagens temporais – Conforme a regra em vigor, os servidores civis recebem, a cada três anos de serviço, um adicional de 3% sobre o vencimento básico, o chamado triênio. Eles podem acumular até 12 avanços. Para o magistério, a regra é de, a cada três anos de serviço, um adicional de 5% sobre o básico. O número de avanços também é de 12. Os militares recebem um triênio de 5% sobre o soldo básico, limitado a 10 avanços. Sobre os totais resultantes de básicos mais triênios, no caso dos militares, são aplicados mais 222% de gratificação de risco de vida.

Adicionais de avanço por tempo de serviço – Podem ser de 15% ou 25%. O primeiro é aplicado sobre o vencimento quando o servidor completa 15 anos de serviço. E, o segundo, quando totaliza 25 anos de serviço. Ao completar 25 anos de serviço, o servidor não recebe 15% e mais 25%. O primeiro índice é substituído pelo segundo. Mas ambos se somam aos triênios. 

Gratificações de permanência – São aquelas pagas como forma de incentivo a que servidores aptos a se aposentar permaneçam na ativa. No caso dos civis, a gratificação de permanência corresponde a 50% do valor do básico. No magistério, a gratificação de permanência é de 50% do básico acrescida de 80% do valor do básico do professor Classe A, Nível 1 do plano de a carreira do magistério. Hoje o valor do A1 é R$ 630,00. Em algumas carreiras da segurança a gratificação de permanência é de 35%.

Abono de permanência – Para todo o funcionalismo, as gratificações de permanência podem ser somadas ao abono de permanência. O abono também é uma forma de incentivo à permanência na ativa. Ele funciona como uma espécie de estorno, porque o Estado paga um valor que corresponde àquele que o servidor desconta para a previdência. Conforme as projeções do Executivo, pelo menos dois mil servidores estaduais recebem atualmente, somados, gratificações e abonos de permanência.

Incorporação de gratificações – É possível a incorporação de funções gratificadas por servidores que as tiverem exercido por cinco anos ininterruptamente ou 10 anos de forma escalonada. No caso de ocuparem mais de uma FG ao longo da atividade funcional, vale a incorporação daquela de maior valor, contanto que tenham permanecido com ela por pelo menos um ano. Em tese, no Executivo, o servidor deve estar no exercício da FG maior para levá-la para a aposentadoria.

Previdência – As mudanças na previdência estadual seguirão as normas nacionais em vias de aprovação no Senado. “A incorporação de gratificações está sendo extinta pela PEC 6 (a da reforma da previdência). A questão que trata do recebimento de uma gratificação que é incorporada e levada para a aposentadoria sem que efetivamente o servidor tenha contribuído vai estar presente em nossa decisão”, assegurou Leite durante o anúncio do pacote em formatação. O tucano também informou que vai seguir as novas regras nacionais em outros pontos, como idades e tempo de serviço, destacou que há planos de mudanças nas alíquotas, “tendo em vista que o governo federal está alterando as suas”, e citou a base de cálculo incidente sobre servidores aposentados. Em referência expressa a resistências de outros poderes, apontou que “o déficit gerado pelo sistema previdenciário acaba sendo suportado apenas pelo Executivo”, afirmou que o déficit atuarial projetado do sistema alcança R$ 373 bilhões, e que as mudanças poderão reduzi-lo em R$ 86 bilhões.

Impacto – O governo divulgou que todas as medidas nas carreiras e na previdência, somadas, têm um potência fiscal de R$ 25 bilhões ao longo de 10 anos, mas não detalhou como chegou à projeção de economia e nem forneceu as estimativas ano a ano. O chefe da Casa Civil, Otomar Vivian (PP), informou que o Executivo pretende votar todos os projetos ainda neste ano, apesar de faltarem pouco mais de dois meses para o encerramento do ano legislativo. Com isso, a convocação extraordinária dos parlamentares no recesso se torna, desde já, uma realidade.

Os números de cada poder (agosto de 2019)

Despesa com pessoal (em R$)

Executivo: 1.564.939.959

Judiciário: 189.051.171

Legislativo: 73.165.882

Ministério Público: 62.720.934

Total: 1.889.877.946

Número de vínculos

Executivo: 282.721

Judiciário: 13.936

Legislativo: 3.619

Ministério Público: 3.681

Total: 303.957

*Fonte: Secretaria da Fazenda

Mais notícias