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Pandemia deixa mais de um milhão de infectados e mais de 53 mil mortos

Crise de saúde sem precedentes deixa quase metade da humanidade confinada
Foto: PATRICK HERTZOG Foto: PATRICK HERTZOG

Mais de um milhão de pessoas apresentaram resultado positivo em exames de detecção do novo coronavírus, mas o número real de enfermos é muito maior no planeta: a pandemia segue avançando e provocando balanços desoladores de mortos em países como Estados Unidos e Espanha. A crise de saúde sem precedentes deixa quase metade da humanidade confinada e a atividade econômica do planeta praticamente congelada.

Além das perdas humanas, os efeitos financeiros da pandemia não demoraram: a Espanha registrou em março 302.265 desempregados a mais que em fevereiro e nos Estados Unidos 6,6 milhões de pessoas solicitaram seguro-desemprego em uma semana.

De acordo com o balanço mais recente da AFP, ao menos 1.035.380 contágios foram detectados em 188 países e territórios. Mas o número reflete apenas uma parte da realidade, pois muitos enfermos não foram nem serão oficialmente diagnosticados devido à falta de testes para todos. Além disso, o novo coronavírus matou mais de 53.000 pessoas. E não apenas idosos. Muitos jovens saudáveis também foram vitimados pela doença, para o choque de médicos e cientistas.

Sem poder tocar o bebê

Em todo o mundo, a pandemia provoca depoimentos tristes e imagens desoladoras. Na Espanha, que nesta sexta-feira voltou a registrar mais de 900 mortes em apenas um dia e onde o balanço total se aproxima das 11.000 vítimas fatais, uma mãe infectada deu à luz e ainda não teve condições de tocar sem luvas seu bebê, do qual permaneceu separada fisicamente por 10 dias.

"Ele agarra seu dedo, coitadinho, e agarra o plástico, não agarra você, mas é um dia a menos. Tenho que pensar desse jeito porque, se não for assim, fico deprimida", explica Vanesa Muro, de 34 anos.

As regiões mais afetadas continuam sendo Madri, com pouco mais de 40% dos falecidos (4.483), e Catalunha (2.335). As duas zonas prosseguem com as emergências de vários hospitais saturadas pelo fluxo intenso de pacientes, o que levou os centros médicos, de acordo com testemunhas, a restringir as internações e privilegiar as pessoas com melhor histórico clínico.

Em Wuhan, na China, berço da Covid-19, Zhang, de 50 anos, sofreu com a morte de seu pai e agora desafia as autoridades em busca de respostas. "Não tenho medo. Quero saber a verdade", afirma. Como muitos outros cidadãos, ele exige nas redes sociais informações sobre o número real de mortos na China e sobre como o país administra e anuncia dados desde o surgimento do coronavírus na cidade.

O aumento dos balanços na Itália e Espanha provoca dúvidas sobre os números oficiais da China (3.318 falecimentos). Um relatório secreto do serviço de inteligência americano, citado por vários políticos, afirma que Pequim mentiu e divulgou dados muito inferiores ao real.

Outro 11 de setembro

A Europa é o continente mais afetado, mas os Estados Unidos estão a caminho de virar no novo epicentro da pandemia. Na quinta-feira o país registrou o recorde de 1.169 mortes, de acordo com o balanço da Universidade Johns Hopkins. 

O número é o maior registrado por um país em apenas 24 horas, desde o início da pandemia. Em 27 de março, a Itália anunciou 969 vítimas fatais em um dia, com uma população cinco vezes inferior a dos Estados Unidos.

Até o momento, os Estados Unidos registram 5.926 óbitos, de acordo com números oficiais. Mas as previsões da Casa Branca projetam que a Covid-19 poderia matar entre 100.000 e 240.000 pessoas no país.

O confinamento e o avanço da doença provocam muitos danos psicológicos. Nos Estados Unidos o impacto já é comparado ao provocado pelos atentados de 11 de setembro de 2001.

Na cidade de Nova York, com mais de 1.500 mortos, os profissionais da saúde não têm os equipamentos de proteção necessários, assim como aconteceu na Itália, Espanha ou França. "Os soldados não vão para a guerra desarmados, por quê os médicos trabalhariam sem equipamento de proteção?", questiona uma das 30 enfermeiras que organizaram um protesto na quinta-feira diante de um hospital de Nova York para denunciar a falta de máscaras e trajes.

Na Itália, o país mais afetado pela pandemia até o momento, com quase 14.000 mortos, o maior crematório de Milão fechou na quinta-feira, saturado com o grande número de corpos. Em Bérgamo, a cidade mais afetada do país, os cadáveres foram transportados em caminhões militares para outras regiões para a cremação.

Rastilho de pólvora

Sem vacina ou medicamentos, o isolamento continua sendo o antídoto mais efetivo. Porém, nas regiões mais pobres do mundo o confinamento é praticamente impossível e o sabão um luxo.

Em locais como Bakassi, um grande campo de deslocados pela violência jihadista no norte da Nigéria, onde vivem mais de 30.000 pessoas, sanitários precários foram instalados para incutir na população o hábito da higiene.

"O sistema de saúde não poderá frear o vírus nem cuidar dos enfermos", disse um funcionário da ONU no nordeste do país. "A epidemia se propagará como um rastilho de pólvora. É aterrorizante", completa.

Na região, boa parte da população depende de ajuda humanitária, que com a pandemia também pode ser reduzida ou enfrentar dificuldades de entrega. América Latina e Caribe registram até o momento 25.000 casos confirmados de Covid-19. 

O cemitério Vila Formosa de São Paulo registra enterros em massa e os velórios não podem ter abraços.  "Aqui enterramos cerca de 45 pessoas por dia, mas na última semana foram 12 a 15 a mais. É muito pior do que vemos nas notícias", disse à AFP um coveiro, sob anonimato.

Imagens chocantes também chegaram da cidade equatoriana de Guayaquil, onde o colapso das funerárias fez com que os mortos fossem transportados pelas próprias famílias em automóveis particulares ou permanecessem dentro das casas por várias horas.

Dilema

Em países como a Itália, os governos enfrentam um horrível dilema: flexibilizar aos poucos o confinamento para ajudar a economia ou prolongar a medida para salvar vidas, afirmou Paul Romer, prêmio Nobel de Economia em 2018. O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, pediu à União Europeia (UE) que seja "mais ambiciosa, corajosa e permaneça unida".

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o bloco sairá "mais forte" da crise, apesar das dúvidas persistentes sobre sua capacidade de fazer com que a UE enfrente o problema com uma só voz.

A Comissão Europeia propôs a criação de um instrumento para garantir até 100 bilhões de euros em planos nacionais de apoio ao emprego. O Banco Mundial afirmou que está pronto para colocar sobre a mesa até 160 bilhões de dólares nos próximos 15 meses.

Na quinta-feira, a Assembleia Geral da ONU aprovou por consenso uma primeira resolução que pede "cooperação internacional e multilateralismo" para lutar contra a COVID-19.

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