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Notícia publicada em Terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010 (10:34:30) por radioam
IMAGENS ANEXADAS

       As imagens da tragédia ocorrida no Haiti que aos poucos foram se popularizando através dos jornais, revistas e televisão motivaram no mundo todo reações de surpresa, temor e solidariedade. Estima-se entre 150 e 200 mil mortos e a quase totalidade da infraestrutura social destruída. Três brasileiros em particular podem destacar suas impressões sobre a tragédia de uma forma diferenciada, tanto pelo convívio estabelecido com o povo haitiano, quanto pela proximidade com o país que foi arrasado por um dos piores tremores de terra da história da humanidade. Um sentimento comum envolve as três histórias contadas aqui: o exercício da responsabilidade profissional colocado à frente de tudo e a solidariedade despertada para com o povo que ainda enterra seus mortos e prepara-se para a dolorosa reconstrução de seu país. 

Marcos Corbari – Ébida Santos / Jornal Folha do Noroeste 

Por um triz 

       Trabalhando há  cerca de dois anos na obra da Congregação dos Oblatos de São Francisco de Salles no Haiti, o padre seberiense Carlos Martins de Borba não se tornou mais uma vítima daquela tragédia por muito pouco. Poderia estar na mesma igreja onde morreu a missionária Zilda Arns, mas recebeu pouco antes o comunicado de que poderia tirar férias para comemorar com sua família os seus 25 anos de sacerdócio. Foi justamente durante este período que a tragédia aconteceu. Agora Padre Carlos enfrenta um drama inverso: precisa retornar para lá para ajudar a reconstrução do país, mas não sabe o que encontrará, não tem certeza sobre em que condições estão seus amigos, seus colegas padres e mesmo os seminaristas que estudavam sob sua orientação. Alguns estão mortos. 

Os desafios da vida missionária levaram padre Carlos a aventurar-se em terras distantes, levando uma mensagem de alento a um dos povos mais pobres do mundo e buscando lá vocações sacerdotais para sua igreja: “Eu cheguei no Haiti no final de 2007 em um projeto de missão da congregação para trabalhar na formação de futuros padres. Eu trabalho atualmente com os seminaristas, juntamente com mais dois padres americanos, inseridos também no trabalho humanitário de serviço social que a nossa congregação presta já há mais de 18 anos naquele país, através de uma Organização Não Governamental social que atua junto ao povo mais pobre do Haiti”.

Padre Carlos costumava sempre tirar suas férias na segunda quinzena de janeiro, mas neste ano, em virtude dos seus 25 anos de vida religiosa, veio no início do mês, e, nas suas palavras, foi “protegido por Deus”, uma vez que poucos dias depois de deixar o Haiti aconteceu o terremoto. “Eu pensei muito nos últimos dias sobre dona Zilda Arns... Com certeza eu estaria ao seu lado no dia que aconteceu o terremoto que a matou e também alguns seminaristas que estavam naquele instituto de teologia em Porto Príncipe” - comentou.

Antes de ser enviado ao Haiti, Padre Carlos acompanhou grupos de seminaristas no Brasil, até  surgir a idéia de fundar uma casa de formação conduzida pelos Oblatos Salesianos naquele país, mas conforme relatou na entrevista, resistiria a idéia de trabalhar naquele país não fosse a missão religiosa: “Depois de conhecer o Haiti, em 2004, quando eles estavam vivendo um tempo de conflitos, eu pensava comigo mesmo que poderia trabalhar em vários locais no mundo, menos lá. Na época quando veio o chamado para trabalhar justamente lá eu não pude dizer não, porque a gente se consagra a Deus não para o serviço nosso, mas a serviço de uma missão maior, então eu respondi sim e fui pra lá dar andamento a este projeto de formação e também nas ações sociais que passamos a desenvolver nas periferias da cidade”.

Segundo relata o religioso, a realidade do Haiti mesmo antes da tragédia já era caótica. Trata-se de um dos países mais pobres do mundo, o mais pobre das américas, cujos níveis de desemprego se aproximam dos 80% da população e a produção local é mínima: “De fato o povo vive na miséria, na pobreza, é um povo sofrido, vem sofrendo há muitos anos por conflitos sociais internos deles mesmos ou ainda por outras catástrofes naturais que aconteceram nos últimos anos e agora enfrentam esse terremoto”.

O que suaviza o sofrimento do povo Haitiano, é a ação das Organizações Não Governamentais e das igrejas, que garantem a subsistência básica para a população, além dos serviços de educação e saúde. Missões humanitárias de países amigos também se destacam nos últimos tempos e, sobremaneira agora em que o país está no caos absoluto são decisivas para organizar o início da reconstrução do país: “O estado não tem muitas condições de oferecer esses serviços básicos para a sua população. O povo vive de doações, vive desse trabalho e dessas instituições que prestam serviços caritativos e de ajuda à população, principalmente aos mais pobres”.

Padre Carlos acredita no potencial do povo haitiano para reerguer seu país, onde apesar da dor de tantas perdas deverá se sobressair a força de uma gente que aprendeu a ser guerreira por natureza, enfrentando de cabeça erguida os problemas que a assolam ao longo da história: “Antes da catástrofe a situação estava relativamente tranquila, as organizações todas funcionamento normalmente, apesar das dificuldades, das precariedades, mas com o país encontrando o seu caminho de crescimento”.

Apesar da aparente tranqulidade e do preparo obtido ao longo de 25 anos de atuação religiosa, a emoção fala mais forte quando padre Carlos é questionado a respeito do que o espera quando retornar àquele país: “Eu estou voltando em breve para lá e fiquei sem casa. Nós temos três casas lá e duas foram atingidas. Em uma delas onde tínhamos 22 seminaristas foi completamente destruída. O padre que estava lá conseguiu escapar, mas 2 seminaristas morreram e outros 5 ficaram feridos. A casa onde eu moro sofreu no primeiro terremoto grandes rachaduras e, agora no segundo, praticamente caiu. Os seminaristas que moravam comigo já foram retirados e todos estão acolhidos na terceira casa, que graças a Deus não foi destruída”.

Ao comentar o que sentiu ao receber a informação da morte dos seminaristas, padres e bispos com quem convivia, padre Carlos embarga a voz: “Quando fiquei sabendo que dois seminaristas nossos foram mortos na catástrofe e seus corpos foram jogados na caçamba e lavados até o valão como estava sendo feito com todos os outros, isso toca o coração. Claro que entendemos que a situação é essa, uma realidade praticamente de guerra, mas não tem como não tocar o coração. A cidade está destruída, até as igrejas foram destruídas. A catedral que eu gostava tanto de frequentar está em ruínas, até os nossos dois bispos morreram. Chegar lá e agora encontrar essa realidade não vai ser fácil”. 

(com informações da rádio Seberi AM) 
 

Bem perto do caos 

A oportunidade profissional que se abriu ao marido foi o que levou a frederiquense Cláudia Tranquillo a migrar para a República Dominicana, país vizinho ao Haiti e que sentiu de perto os efeitos do tremor que matou mais de 150 mil pessoas. Esposa do engenheiro civil Chico Milani, ambos estão residindo no país centro-americano por motivos profissionais, uma vez que Milani está trabalhando em uma empresa brasileira que está construindo uma obra em território dominicano. Apesar do susto, a responsabilidade profissional segue sendo colocada em primeiro plano.  

A República Dominicana acabou sendo atingida também, embora em menor proporção, pelos efeitos do terremoto: “Foi um grande susto, sentimos o terremoto, foi forte, mas nem se compara ao Haiti, foi em proporções muito menores, aqui ninguém se feriu e não houve danos. Acho que foi a sensação mais estranha que já tive na vida, a terra se move sob os nossos pés, os prédios se movimentam como se fossem de papel, as coisas todas saem do lugar, lustres balançam, as pessoas saem correndo evacuando os prédios em pânico porque já tiveram experiências terríveis... foi realmente muito assustador, nada pode ser feito contra as forças da natureza, ficamos totalmente indefesos”.

Um dos momentos mais marcantes para Cláudia foi quando se deu conta do que estava acontecendo: “Num primeiro momento eu nem sabia o que estava acontecendo. Quando nos demos conta saímos correndo, parecia um pesadelo e demorou a passar, pois logo depois do primeiro tremor, veio outro e a sensação é de que vai voltar a tremer a qualquer momento. Dias depois veio outro tremor mais fraco, mas felizmente foi só um susto, tudo está bem”.

A proximidade com a tragédia fez com que o casal brasileiro também se mobilizasse para contribuir com as vítimas no país vizinho: “Hoje mesmo contribuímos enviando leite em pó para o Haiti, tem muitas campanhas aqui. Alguns feridos estão vindo pra cá. Pobre gente, o Haiti está um caos”.

Apesar do susto Cláudia ainda não pensa em retornar ao Brasil: “Na verdade, antes de virmos pra cá, já sabíamos que era uma região propícia a este tipo de abalo, devido a localização geográfica, já que a República Dominicana está entre as placas tectônicas do Caribe e Norte-Americana. Depois do que aconteceu, realmente, a gente fica um pouco mais assustado, mas nem por isso vamos voltar ao Brasil. Temos compromissos aqui e vamos permanecer”.

Finalizando a troca de mensagens, Cláudia relembra que o melhor a ser feito agora é o exercício da solidariedade: “Foi uma tragédia que abalou o mundo. Acompanhamos todos os noticiários e, assim como vocês aí no Brasil, estamos cientes do que está havendo no Haiti.  Eles estão passando por uma situação catastrófica e é o momento de todos contribuírem, de alguma maneira, para a reconstrução desse país que mais do que nunca necessita de ajuda”. 

O início de tudo 

A carreira militar no Brasil hoje é observada muito mais pelas responsabilidades desempenhadas pelo país em suas missões de paz do que propriamente pelo enfrentamento de situações reais de guerra que possam ameaçar nosso território. Encarnando com presteza este espírito de pôr-se a serviço em terras distantes que necessitavam do trabalho e da mediação de nossas forças armadas, que o seberiense João Antonio da Costa, filho do taxista Julio Simões, participou no ano de 2006 da ação do exército em solo haitiano. O guerreiro brasileiro também aprendeu com os guerreiros diários que já enfrentavam antes da tragédia consolidada com o tremor da terra, as tragédias cotidianas da fome, das doenças, do desamparo... 

Como é  característico aos homens de farda, o subtenente João Antonio 45 anos, é objetivo em suas palavras, conversando com nossa reportagem sem meias verdades. Integrante do 4º. Contingente de Engenharia do Exército Brasileiro, comentou sobre as funções desempenhadas pelos nossos soldados no Haiti: “O exército tem duas unidades militares atuando lá, uma unidade de engenharia, que tem um trabalho específico de reconstrução do país, principalmente nas áreas específicas de abertura de poços artesianos,  asfaltamento de ruas e limpeza urbana, trabalhos mais sociais. Já o batalhão de infantaria tinha a missão específica de impor a paz, pois naquela época haviam muitas gangues, muita instabilidade. Na época conseguimos esses objetivos e agora o país estava engatinhando para alcançar a normalidade”.

As dificuldades enfrentadas pelos soldados naquela época variavam muito, mas João cita a distância da família como uma das problemáticas mais marcantes: “Hoje com os avanços tecnológicos isso fica mais fácil de enfrentar, mas o dia a dia traz uma cultura diferente, um povo diferente. O nosso exército inegavelmente se dá muito bem com o povo haitiano, por essa relação mais amável, mais afável que o brasileiro tem. Isso facilitou de certa forma e os trabalhos  sociais repercutiram muito bem na sociedade, então a relação ficou melhor”.

Sobre a diferença do Haiti que o exército encontrou em 2006, marcado principalmente pelos distúrbios sociais e o Haiti atual, vítima de uma catástrofe natural, o militar é pontual na comparação: “No período em que eu estive lá era reconstrução e imposição da paz. Era uma situação diferente. O controle de distúrbios civis levava a uma relação um pouco inóspita do batalhão com a sociedade, com as gangues, enquanto a engenharia era vista com outros olhos por que fazia o trabalho social. Quando essa paz foi conseguida e a normalidade estabelecida no país a situação estava sob controle. Hoje após essa catástrofe, pelas informações de colegas que estavam lá e retornaram, infelizmente o país retrocedeu a tr6es vezes pior do que estava em 2004 quando iniciaram os trabalhos”.

O guerreiro quer voltar a batalha e mostra-se ansioso pelo possível retorno ao território Haitiano, que está na iminência de ser confirmado: “O desejo é muito mais forte de voltar pra lá hoje do que propriamente era há dois anos atrás quando estive lá. A pessoa quando passa pelo Haiti  e vê aquele povo, aquele sofrimento, ela realmente revê os seus conceitos, se torna outra pessoa”.

Finalizando a conversa João Antonio relembrou com saudade de uma atividade em particular, quando aos domingos deixavam de lado a missão de soldados e realizavam um trabalho voluntário com crianças haitianas, adotadas informalmente: “Essa foi um fato que me marcou muito e depois que voltei tive a alegria de saber que o colega que me substituiu continuou com esse trabalho”. De coração visivelmente apertado ele encerrou a entrevista informando que esse orfanato, que recebia as visitas dos soldados brasileiros, foi severamente atingido pelo terremoto: “Não tenho notícias das crianças, não sei se meu afilhado sobreviveu ou não”. 
 

(Colaboraram nesta reportagem Jéferson Carvalho, Mariane Dakan, Ane Piaia, Maristela Freitas, Neide Costa, Marcelino Tranquillo e Geani Schneider )

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